lunes, enero 22, 2007

Fenix (atualizado)

Fechou a porta e não olhou para trás. Pegou as duas malas e uma surrada mochila do extinto Banco Nacional. Jogou as chaves da casa no vão da janela, sem olhar para dentro. Partiu. Sozinho. Acompanhado de si mesmo. Muitas desilusões. Um segundo casamento fracassado, sem filhos, uma carrera insípida, uma vida medíocre e tantos desejos suicidados... Foi ao terminal de onibus e comprou o primeiro bilhete que encontrou no primeiro guiche que chegou.

Dormiu todo o caminho... Horas, dias, semanas, como se o corpo não respondesse mais a alma e essa dominasse tudo. "Ponto final, chegamos!" Aonde cheguei, que importa agora? O único que queria era não ser ninguém, ser um a mais, um desconhecido. Viveria na rua, fazendo bicos de pintor, ajudante, carpinteiro. Seria possivel comecar de novo, poderia ter uma segunda chance? Já nao tinha mais seus 20 e pouco anos, já estava com 41. E cada dia mais e mais cansado. Esgotado do podre consumismo, do dinheiro, do materialismo, das religioes.

Renascer das cinzas. Morrer muitas vezes. Se sentir vivo. Só faltava a coragem de começar novamente. Foi pensando nisso que começou a sentir-se mais leve, com uma estranha força que não sentia há tempos. Revirou os bolsos da calça e encontrou 25 reais em monedas. Nao comeu todo o caminho e o estomago começava a queixar-se. Deixou as malas na rodoviária. Perguntou a uma criança se tinha alguma padaria ali perto, ela disse que sim, virando a direita e à esquerda e seguindo reto. “Debe ser mentira.” Mas que diabos! Nao importava, ele tinha tempo e uma caminhada cairia bem.

Depois de 15 minutos chegou na padaria. Com mais fome. O lugar era simples, antigo. Um senhor com barba ruiva, bochechas vermelhas e com dois dentes na frente pregunta o que vou querer. “Um pao na chapa.. aliás dois, nao, tres e um café com leite. “Tres “pao na chapa” grita ao chapero. O neguinho no fundo, com largo sorriso, responde “é para já meu rei”. Achou engraçado a expressao e sorriu. Fazia tampo que nao sorria assim, espontáneo. Comeu com um certo prazer, pagou e saiu.

Ninguém nunca mais soube do seu paradeiro.

As ex - mulheres só sentiram sua falta depois de 15 dias, quando comecaram as cobranzas de contas nao pagas. Ligaram na casa dos seus pais e ninguém sabia de nada “provavelmente está dormindo na casa de algum amigo”, “mas ele nao tem amigos”, “nao se preocupe que uma hora aparece” e nao falaram mais disso. Seguiram com as suas miséraveis vidas. No inicio se lembravam dele, do quanto era calado, sisudo, frio. Depois de um tempo era como se nunca tivesse estado ali.

E foram todos infelizes para sempre.

4 Comments:

Anónimo said...

Ácido... gostei.

FAFÁ said...

Real.... Gostei!

Anónimo said...

ma...vc ta sem email?

Anónimo said...

quanto à historia? alguem tinha que ser feliz...rs...