Alexsandra, minha irmãzinha, acaba de morrer. Minha cabeça não deixa de projetar a tosca imagem dos forenses com seus gestos mecanicos e insensiveis, metendo seu corpo sem vida na bolsa negra.
Mamãe está inconsolável: sua filhinha caçula, última recordação de um amor já passado com papai, mas que ela ainda se apegava tanto, deixou de existir, segundo os médicos, há 3 horas. Agora, para minha mãe, não resta nada mais do que iniciar o tortuoso ritual que consiste em avisar aos familiares e amigos o que passou, repetindo uma e outra e outra e outra vez as mesmas palavras: - aconteceu algo terrivel....- Tudo isso para unir, ao final, os lamentos através de um indiferente fio telefonico.
Papai por sua parte e, dizem, como os verdadeiros homens, não chora. Prefere afastar-se com um rosto indecifrável, batendo a porta ao desaparecer a este quarto escuro, repleto de livros de medicina e psicología, a que chama estudio.
E eu, com os olhos secos logo do dilúvio que derramaram, me dedico a observar pela janela, sentado na minha poltrona verde, as luzes de dezenas de carros que se movimentam pela avenida e confundo-as com fantasmas que perambulam sem destino em esta desgarrada noite. Perambulam como posivelmente faz agora Alexsandra, quem sabe com o pijama do Pato Donalds que regalei a ela faz tanto tempo, o mesmo que ela vestia quando a encontrei no seu quarto, estendida na cama, segurando o seu ursinho de pelúcia, os cabelos largos e enrolados cubrindo o seu rosto, pálida e sem vida.
Passou, não é mentira.
Difícil comprender como as coisas se veem a colores uns dias e em um piscar de olhos se tornam preto&branco, ou explicar como alguém que te ama e a quem voce admira, te ve a colores, mas voce acaba comportando-se como uma simples e imprestável estátua cinza.
Faz pouco tempo, eu acho, tudo transcorria muito normal: o pai agoniado com o seu trabalho, mamãe se divertindo com suas amigas; minha irmã fazia travessuras e brincando no jardim; e eu com meus estudos, minha bicicleta e minhas excursões. Mas tudo mudou. Esta noite que entrou no meu quarto, com os pés descalços no carpete e o semblante como que hipnotizada, caminhando até mim, mas enxergando o nada, minha irmã comecou a chorar com um rosto tão cheio de angústia e desesperação como o que mostrava ao despertar-se de algum pesadelo, logo depois que assistíamos a esses filmes de dragões e outros monstros que tanto a espantavam. –Claro-, eu dizia naquela ocasião.- não deveria ter visto este filme comigo. Si quiser dorme aquí, eu te cuidarei.
Eu te cuidarei.
Era isso o que eu a repetia, uma e outra vez e outra cada vez que os monstros da televisão a inquietavam. Mas, naquela noite em que Alexsandra me contou que os seus sonhos tinham se convertido em realidade, que o monstro havia decidido abandonar a ficção e entrar no corpo do pai… não quis acreditar.. morria de medo. Não sei quantas vezes se passo, tampouco quero imaginar-lo. Papai aproveitava minha ausencia e de mamãe, ou do nosso sonho, para entrar silencioso no quarto de Alexsandra, apontando com o dedo na boca que não deveria fazer ruído. Depois, dava uns passos até cama, desabotoava a calça e fazia cair no chão diante dos olhos cor de mel da minha irmã, grandes e atonitos, que se tingiam de cinza pela sombra realidade. Alexandra necesitaba algo a que apegar-se, um guardião para protege-la, um companheiro que a ajudasse a atravessar o inferno por onde caminhava e, inútilmente, me buscou. Eu, petrificado, sem saber o que fazer, não servi de nada. Então o pequeno corpo, tremendo-se toda e seus olhos examinando-me, seu rosto revelando mais ódio que sofrimento, me dizia, ou melhor, me murmurava: - Eu vou matar, vou matar o dragão.
Aos poucos foi criando coragem… algo que a mim me faltou e ela o fez.
Com a ajuda de pílulas para dormir que usa mamãe, hoje decidiu colocar um ponto final ao seu sofrimento. Matou o dragão. O dragão já não poderá mais lastimar-la. Minha irmãzinha caçula está morta. Desejaria poder dizer que acreditava nela, para poder, ao fim, aonde quer que esteja, cuidar-la como tinha prometido. Me levanto da poltrona verde, olho através da janela e ao ver meu reflexo, as lágrimas regressam. Busco minha mãe e só escuto seus passos e sua voz débil na cozinha. Olho a imensa porta do estudio que esta o meu pai e penso: talvez ele busque em alguém mais o que não obteve com a minha irmã... Talves ele encontre nas minha mãos o que ela pretendia fazer…